segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Meta-postagem: Sobre o Oximoro



No princípio era o Verbo. Logo não havia sujeito ou predicado, mas apenas atividade, ação de... de quê? De quem, se não havia sujeito? O começo é sempre estranho, complicado, misterioso. Então vamos deixar de lado essa estéril especulação gramatical sobre a origem e dar um salto para o dia em que, muito depois do princípio, foi criado o oximoro, ou melhor, o blog oximoro. Momento importante da história universal das idéias. Mas o que é oximoro? Passemos à inexplicável explicação. Pronto. Aí está o oximoro.
O oximoro é uma figura de linguagem, bastante usada em retórica, na qual dois conceitos opostos se harmonizam. O termo deriva do grego ὀξύμωρον, tó oxymoron, composto de ὀξύς "agudo, aguçado" e μωρός "estúpido", “tolo”, “louco”. “Aguda loucura” era como os gregos o entendiam, isto porque, enquanto a contradição encerra um paradoxo no qual as idéias opostas são vistas como algo inaceitável (Aristóteles repudiava veementemente qualquer contradição ao nível do discurso filosófico), o oximoro é um tipo de paradoxo no qual a oposição de conceitos permanece conservada (por isso é uma forma de loucura) e convida o leitor, ou o ouvinte, à interpretação de seu significado. Segundo Plebe e Emanuele:

“o oximoro tem em comum com a antítese o fato de que ambos consistem na expressão de uma contradição, mas com uma diferença fundamental: enquanto a antítese proclama tragicamente a contradição, o oximoro assume-a e enuncia-a tranquilamente”.

“Harmoniosa discórdia” (este é quase um meta-oximoro, o oximoro mor, pois é um oximoro que resume a própria idéia de oximoro), “instante eterno“, “foi sem querer querendo” (Chaves foi um grande retórico), “é proibido proibir”, “lúcida loucura”, “obscura claridade”, “espontaneidade calculada”, “economia capitalista sustentável”, “Brasil, um país de todos” são exemplos de oximoro.
Para usar o oximoro, portanto, é preciso estrangular o professor de lógica. Condição sine qua non para ser poeta, gente. Campos de Carvalho fez isso: “Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica”, dizia ele (aviso ao leitor: é um risco deixar para matar o professor de Lógica já em idade tão avançada). A literatura está recheada de exemplos de oximoros. Na obra A Metamorfose, por exemplo, Kafka usa e abusa do oximoro como forma de dilapidar a linguagem protocolar, fria e formal de sua escrita. Na verdade ele engana o leitor. Tudo ocorre como se o sentido estivesse dado objetivamente, fosse unívoco, quando de repente (desculpem o meu saudosismo lingüístico): “Bom dia, senhor Samsa – bradou em meio o gerente, num tom amigável”; “- O que o senhor está querendo dizer com isso? – disse algo atônito o senhor do meio e sorriu docemente”, ou “- Ah! Exclamou logo à entrada, num tom de quem está ao mesmo tempo furioso e contente”. “Bradar amigavelmente”, “docemente atônito”, “furiosamente contente”, são idéias ambíguas, que desalojam o leitor da passividade contemplativa e só adquirem sentido pelo esforço interpretativo. Já Baudelaire escreve: “O fangeuse grandeur! sublime ignominie! [Ó lodacenta grandeza! Ó sublime abjeção]”. Shakespeare no Macbeth, “So foul and fair a day I have not seen. [Nunca vi dia tão feio e bonito assim]” e no Romeu e Julieta, “This love feel it, that feel no love in this. [Tamanho é o amor que sinto, que não sinto amor nenhum em senti-lo]”.
Mas não apenas os retóricos, escritores e poetas se utilizam do oximoro. Até mesmo filósofos, isso mesmo, filósofos fazem uso da esquizofrênica figura de linguagem. Kant, por exemplo, é autor de um dos mais célebres, a “insociável sociabilidade”. Mas aqui há uma diferença fundamental: enquanto os poetas deixam a significação em aberto, Kant procura investir sua aguda loucura de caráter explicativo, o que é ainda mais louco:

“O meio que a natureza utiliza para levar a bom termo o desenvolvimento de todas as suas disposições é o seu antagonismo no interior da sociedade, na medida em que este é, no entanto, no final de contas, a causa de uma organização regular dessa sociedade. Entendo aqui por antagonismo a insociável sociabilidade dos homens, ou seja, a sua inclinação para entrar em sociedade, inclinação que é contudo acompanhada de uma repulsa geral a entrar em sociedade, que ameaça constantemente desagregá-la.”

Eis o oximoro do casto Immanuel Kant. Ainda que o filósofo procure delimitar o campo semântico da expressão o oximoro teima em conservar sua ambigüidade fundamental. Talvez a mais ambígua figura de linguagem, o oximoro é isso, o alegre acolhimento da contradição, do paradoxo, da ambigüidade. O blog oximoro pretende ser isso também, adicionado de uma boa dose de humor e ironia diante do simulacro real em que vivemos. Literatura, Música, Cinema e Filosofia serão os temas dominantes do blog, mas haverão incursões noutros terrenos movediços também.
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